O cantor e compositor Chico Cesar falou sobre o reforço dos estereótipos por trás da valorização dos negros na música e sobre sua crença nas mulheres negras, afirmando que elas podem desfazer os nós do racismo. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo publicada nesta terça-feira (17), o cantor destacou: “O que adianta ser um grande jazzista negro se você só tocar para plateias brancas e, no intervalo dos shows, ser encaminhado para fumar na parte dos fundos de um clube de jazz?”. Ainda segundo ele, o melhor que um artista branco e hétero tem a fazer é ouvir as vozes de quem foram silenciadas por tanto tempo.
Questionado se houveram avanços nas questões raciais, Chico César afirmou ao Estadão que “a presença da mulher negra está sendo definitiva no pensamento brasileiro sobre o racismo. Ela faz isso com mais força do que os homens ao trazer questões como o assédio, o estupro, o subemprego. As maiores respostas para as saídas desses dilemas estão sendo trazidas pelas mulheres negras”, disse o artista, acrescentando que veio de uma família com uma mãe e cinco irmãs, e que sente o quanto isso foi importante em sua visão de mundo.
Durante a entrevista, Chico citou que o melhor lugar de um homem hétero e branco, neste momento, seja o lugar de escuta. “Artistas brancos precisam entender que durante muito tempo foram eles que fizeram as letras, as músicas e a arte enquanto os negros estiveram sendo silenciados. Mas penso também em Chico Buarque. Ele sempre terá um lugar de fala, como terão Fernanda Montenegro e tantos grandes artistas não negros do país. [..] Mas é preciso, neste momento, estar mais atento para ouvir o que os negros têm a dizer. Quem já falou e cantou muito escuta um pouco agora. E, depois, traga essas vozes para junto de si”, frisou ele.
O artista ainda conclui dizendo que “negros são seres complexos como os brancos que podem despontar em todas as frentes. O que adianta ser um grande jazzista negro se você só tocar para plateias brancas e, no intervalo dos shows, ser encaminhado para fumar na parte dos fundos de um clube de jazz? Em São Paulo, você sobe a Avenida Rebouças para entrar no Viaduto Noite Ilustrada. Muitos sabem que Noite Ilustrada foi um grande cantor negro (morto em 2003), mas quase ninguém sabe que Rebouças foi André Pinto Rebouças, um engenheiro baiano e negro”, finalizou.
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