O Pix brasileiro virou um dos principais pontos de tensão entre Brasília e Washington, segundo especialistas em economia e relações internacionais. A iniciativa de pagamentos instantâneos, lançada em 2020, virou alvo do governo de Donald Trump quando a Casa Branca incluiu o sistema na lista de justificativas para o tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. Para analistas, o motivo é menos comercial e mais geopolítico: o Pix reduz a dependência do País das plataformas de cartão controladas por empresas norte-americanas.
O professor de Economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva, observa que o movimento revela preocupação dos Estados Unidos em manter poder sobre a infraestrutura financeira global.
“Esse tipo de medida deixa evidente que os EUA não querem perder o controle que exercem há décadas sobre o sistema financeiro de boa parte do mundo. Não à toa, a China não usa Visa e Mastercard. Ela criou mecanismos próprios, em busca de maior soberania”, comentou.
Silva lembrou que o Pix aumentou a bancarização da população e ampliou a base de consumidores que agora movimentam recursos eletronicamente. Isso, ressalta, também abre oportunidades para emissores de cartões norte-americanos, que se beneficiam do acesso a dados e novos correntistas.
Em 2025, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões, alta de 10,1%, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). Mesmo assim, o tarifaço pode gerar perdas imediatas para exportadores dos EUA, que hoje mantêm superávit comercial com o Brasil, pondera o professor.
“Do ponto de vista imediato, essas taxas prejudicam mais as companhias americanas. É uma política de pressão: abre mão de ganhos agora para preservar influência estratégica”, avaliou Silva.
Na visão do professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, o Pix se tornou instrumento de poder para o Brasil ao permitir transações diretas em moedas locais.
“Ao ampliar a autonomia, o País facilita o comércio bilateral em moedas nacionais, escapando da arbitragem do dólar”, explicou.
O Banco Central brasileiro já assinou acordos de cooperação técnica com 47 países interessados em adotar soluções semelhantes. Essa expansão, indicam analistas, pode reduzir ainda mais o alcance de sanções aplicadas pelos EUA por meio de operadoras de cartão baseadas em seu território.
Carmona ressalta que sistemas domésticos, como o Pix, limitam a eficácia de bloqueios. Casos como o das sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes ou o embargo a Cuba mostram como Washington exerce poder financeiro quando controla redes de pagamento.
“Ao dominar as rotas de pagamento, os EUA conseguem impor punições a países ou indivíduos. Plataformas nacionais diminuem essa vulnerabilidade”, pontuou.
A discussão sobre soberania financeira também ecoa em Bruxelas. A União Europeia anunciou o Euro Digital, projeto de pagamentos eletrônicos sem tarifas previsto para ter fase-piloto em 2027. A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, justificou a iniciativa com a dependência europeia de redes estrangeiras.
“Dependemos predominantemente das redes americanas, por vezes das chinesas. Precisamos de uma solução europeia porque queremos ser soberanos internamente”, declarou Lagarde ao canal Euronews.
Para a revista The Economist, o avanço de sistemas “soberanos” ameaça as margens operacionais superiores a 50% de gigantes como Visa e Mastercard. No Brasil, a mobilização em torno do Pix escancara que, além de inovar na inclusão financeira, o País reúne cartas geopolíticas capazes de alterar o tabuleiro do poder monetário internacional.
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