A Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) encolheu 23,1% entre 2024 e 2025, a maior queda já registrada, aponta estudo do Brics Policy Center (PUC‑Rio) com dados da OCDE. O total foi US$174,3 bi (~R$900 bi).
A Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) encolheu 23,1% entre 2024 e 2025, marcando a maior retração já registrada no fluxo de recursos de países ricos para nações em desenvolvimento e organizações multilaterais. O dado consta do estudo Financiamento para o Desenvolvimento, elaborado pelo Brics Policy Center, da PUC-Rio, com base nas estatísticas do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento, vinculado à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Em valores absolutos, o volume destinado no ano passado ficou em US$ 174,3 bilhões — quase R$ 900 bilhões —, o que representa uma subtração real de US$ 52,4 bilhões em comparação a 2024. Foi o segundo recuo anual consecutivo e, segundo as projeções dos pesquisadores, haverá nova queda de 6,9% em 2026, trazendo o patamar de ajuda ao nível observado em 2014.
O corte não ocorreu de forma homogênea. Os cinco maiores doadores — Estados Unidos, França, Alemanha, Japão e Reino Unido — responderam por 95,7% da redução. O destaque negativo ficou com os EUA, que diminuíram suas transferências em 56,9%, respondendo sozinhos por três quartos (75,1%) do encolhimento global. Pela primeira vez todos os grandes financiadores reduziram doações por dois anos seguidos: Alemanha (-17,4%), França (-10,9%), Reino Unido (-10,8%) e Japão (-5,6%).
“Os governos doadores estão redefinindo quais tipos de engajamento multilateral eles consideram dignos de serem preservados, por motivos estratégicos”, afirma o documento.
O estudo observa que a diminuição coincide com a posse do presidente Donald Trump em seu novo mandato nos Estados Unidos, período em que as prioridades orçamentárias migraram para defesa e segurança energética. Os gastos militares norte-americanos subiram de US$ 822,8 bilhões em 2024 para US$ 845,3 bilhões em 2025, enquanto, na União Europeia, a conta de defesa avançou 11%, alcançando 381 bilhões de euros. O investimento total em energia no bloco quase dobrou em uma década, saindo de US$ 215 bilhões em 2015 para cerca de US$ 420 bilhões em 2025.
“Esse impulso de investimento vem se consolidando ao longo da década e foi fortemente acelerado pelo choque de segurança energética após o início da Guerra da Ucrânia”, explica o relatório.
A retração não é uniforme entre os canais multilaterais. O financiamento ao sistema das Nações Unidas caiu 27%, o maior tombo já registrado, mas os repasses ao Banco Mundial avançaram 6,4% e, aos bancos regionais de desenvolvimento, 11,9%. Já a Ucrânia tornou-se o maior beneficiário individual da história da AOD, com US$ 44,9 bilhões recebidos em 2025 — valor superior aos US$ 28,1 bilhões distribuídos entre os 44 países classificados pela ONU como Países Menos Desenvolvidos.
Na África Subsaariana, a ajuda recuou 23%, para US$ 29,2 bilhões. Se a previsão de novo corte em 2026 se confirmar, a região perderá mais US$ 11,8 bilhões, agravando a situação de 32 países que também integram o grupo das nações menos desenvolvidas.
“A estimativa é de que os cortes na ajuda externa somente em 2025 seriam responsáveis por 695.238 mortes em excesso e que, caso a tendência continue, poderiam causar 9.416.417 mortes até 2030”, reproduzem os pesquisadores com base em dados da Oxfam.
Para além do diagnóstico, o levantamento sugere que doadores redefinam prioridades, reforcem o financiamento climático e adotem mecanismos de alavancagem de capital privado, numa tentativa de compensar o esvaziamento dos cofres públicos destinado ao desenvolvimento global.
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