Relatório reservado enviado ao Planalto, TSE e Ministério da Justiça aponta alto risco de interferência dos EUA nas eleições de 2026. Abin também alerta para possível intensificação da pressão norte-americana.
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) encaminhou, no fim de agosto, um relatório reservado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. O documento classifica como alto o risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026 e alerta para a possibilidade de intensificação da pressão norte-americana sobre o país.
No texto, a Abin observa que a reafirmação da hegemonia de Washington na América Latina é descrita como prioridade do segundo mandato de Donald Trump. O objetivo, segundo o relatório, seria afastar rivais estratégicos — entre eles a China — de ativos considerados valiosos, como riquezas naturais e grandes projetos de infraestrutura instalados no Brasil e em países vizinhos.
Nos últimos meses, analistas da inteligência identificaram aumento de iniciativas diplomáticas, econômicas e políticas que estariam prejudicando interesses brasileiros. Apesar das críticas, integrantes do governo Lula procuram manter o diálogo aberto. Em compromissos públicos, o presidente costuma minimizar as diferenças e, em tom descontraído, já afirmou:
“Eu me dou muito bem com o Trump.”
A relação, no entanto, não impediu sucessivas disputas comerciais. Em abril de 2025, Washington impôs uma tarifa de 10% sobre uma série de produtos brasileiros. À época, o argumento se limitou a questões econômicas. Dois meses depois, o componente político ganhou força: em 30 de julho, uma Ordem Executiva qualificou o Brasil como “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos EUA” e elevou a sobretaxa para 50%.
A justificativa incluiu decisões do Judiciário brasileiro que restringiam plataformas como a Rumble, ligada ao conglomerado Trump Media & Technology Group, e o X (ex-Twitter), de Elon Musk. As restrições tinham como pano de fundo investigações sobre discursos de ódio e ataques à democracia.
Outra peça de atrito foi a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Washington tratou a decisão como perseguição política. Trump adotou o mesmo discurso do aliado brasileiro e passou a citar o caso como exemplo de ameaça à liberdade de expressão.
Em seguida, o governo norte-americano estendeu a Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos ligados à tentativa de golpe, e à esposa dele, Viviane Barci Moraes. A lista incluiu ainda sete ministros do STF, que tiveram vistos cancelados e ficaram impedidos de movimentar ativos nos EUA. Em dezembro de 2025, Moraes e a esposa foram retirados das sanções.
Paralelamente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro instalou-se nos Estados Unidos e celebrou publicamente as punições. Ele também afirmou — em postagens nas redes — ter atuado para convencer autoridades americanas a adotar as medidas, o que resultou em denúncia por coação no curso do processo. O STF o condenou em junho de 2026; desde então, ele perdeu o mandato por ausências na Câmara.
O cenário comercial começou a mudar em fevereiro deste ano, quando a Suprema Corte dos EUA derrubou as tarifas globais decretadas por Trump, declarando que excediam a competência do Executivo. Apesar da derrota judicial, a Casa Branca manteve instrumentos de pressão e, em 22 de julho, anunciou nova sobretaxa de 25% para produtos brasileiros, mantendo o clima de incerteza para exportadores.
Com o relatório da Abin em mãos, autoridades brasileiras avaliam alternativas diplomáticas para conter possíveis ingerências eleitorais. O governo monitora canais de financiamento externo, campanhas de desinformação nas redes e eventuais movimentos de lobby que possam influenciar o pleito de outubro. Interlocutores no Palácio do Planalto destacam, porém, que qualquer reação deverá preservar a parceria comercial bilateral, avaliada em cerca de US$ 100 bilhões anuais.
Nesse tabuleiro complexo, Brasília tenta equilibrar a defesa de sua soberania com a necessidade de manter portas abertas em Washington. Enquanto analistas discutem os próximos passos, o relatório da Abin reforça a percepção de que as eleições de 2026 acontecem sob vigilância redobrada — doméstica e internacional.
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