No mês do Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher (10/10), o TSE aponta 177 processos por agressão política de gênero em 2026, 11 vezes mais que os 15 de 2022. Entidades dizem que a tendência ameaça candidatas.
O mês que marca o Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher, celebrado em 10 de outubro, chega com um alerta: agressões políticas de gênero vêm crescendo em ritmo acelerado em todo o país. Levantamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registra 177 processos abertos em 2026, número 11 vezes maior que o contabilizado em 2022, quando eram 15.
Instituída para lembrar o protesto de 1980, quando centenas de mulheres ocuparam as escadarias do Teatro Municipal de São Paulo contra crimes de gênero, a data motiva balanços sobre a violência que atinge especialmente candidatas e ocupantes de cargos eletivos.
Monitoramento das organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global aponta 134 episódios de violência política durante a campanha até o primeiro turno, em 04/10. Houve um caso a cada nove horas, sendo que 70 vítimas eram mulheres (52,2%). Entre os 102 ataques contra pessoas candidatas, 60 tinham alvo feminino (58,8%), apesar de as mulheres representarem apenas um terço das candidaturas.
A Central de Atendimento à Mulher – Disque 180 recebeu 1.564 denúncias de violência política entre janeiro e agosto de 2026. Mais da metade (842) refere-se a mulheres pretas e pardas; outras 590 envolvem mulheres brancas e 132 atingem vítimas de outras raças.
No fim de setembro, entidades civis encaminharam ao TSE um dossiê com denúncias que incluem agressões físicas, verbais e ameaças de morte ou estupro contra candidatas.
O caso de maior repercussão envolve Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), eleita deputada federal aos 21 anos com 524.219 votos. Segundo a parlamentar, mensagens recebidas durante a campanha traziam ofensas machistas e racistas, divulgação de dados pessoais e ameaças de estupro e morte, o que levou o partido a contratar segurança armada.
“É assustador porque as violências políticas são, no fundo, questões estruturais, sejam elas no limite da ameaça à vida, sejam essas violências cotidianas e veladas que tentam desestimular a participação da mulher na política.”
A avaliação parte de Sandra Kennedy, que atua na Secretaria Nacional de Articulação Intersetorial e Interfederativa e Participação Política do Ministério das Mulheres. Para ela, a escalada reflete a combinação de misoginia, violência doméstica e feminicídio em uma sociedade ainda marcada pelo patriarcado.
Outros casos que ganharam repercussão
- Marielle Franco: vereadora assassinada a tiros no Rio, em março de 2018.
- Isa Penna: deputada apalpada por colega na Alesp, em 2020; agressor condenado.
- Maria do Rosário: alvo de ofensas de cunho sexual em 2014, no Congresso.
- Talíria Petrone: escolta armada retirada em 2026 apesar de ameaças.
- Simone Tebet e Soraya Thronicke: interrupções sistemáticas de fala na CPI da Covid, em 2021.
Canais para denunciar violência política
- Ligue 180: atendimento 24h, gratuito e sigiloso; denúncias também via WhatsApp (61) 9610-0180, e-mail central180@mulheres.gov.br e videochamada em Libras.
- Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público.
- Procuradoria-Geral Eleitoral, por meio da Sala de Atendimento ao Cidadão do MPF.
- Ouvidoria Nacional da Mulher do Conselho Nacional de Justiça.
Especialistas ressaltam que a participação feminina na política avança, mas a violência atua como barreira silenciosa ao engajamento. O fortalecimento de instrumentos de denúncia e a rápida apuração dos casos são apontados como passos essenciais para garantir eleições mais seguras e inclusivas.
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