Preços altos dominam a agenda eleitoral e geram descontentamento; parte do eleitorado culpa tarifas e o conflito com o Irã. Mesmo assim, o desemprego é baixo, o emprego é recorde e o PIB segue em crescimento.
Na reta final antes da escolha que definirá se o Partido Republicano do presidente Donald Trump continuará controlando o Congresso, a economia ocupa o centro da atenção dos eleitores norte-americanos. Preços considerados altos e persistentes alimentam um sentimento de descontentamento, enquanto parte do eleitorado associa a manutenção da inflação às tarifas comerciais e ao conflito com o Irã.
Os indicadores, porém, pintam um quadro mais complexo. De um lado, a taxa de desemprego segue historicamente baixa, o número de pessoas empregadas é recorde e o Produto Interno Bruto avançou a uma taxa anualizada de 3,4% no último trimestre. O ciclo de investimentos em inteligência artificial, que impulsionou Wall Street ao longo do ano, ajudou a engordar as reservas de aposentadoria de milhões de cidadãos.
Do outro lado está a inflação, menos intensa que em 2022, mas ainda forte o suficiente para pesar no orçamento familiar a cada abastecida no posto, pagamento de conta de luz ou pedido de comida. Pesquisas de opinião revelam que o humor do consumidor se deteriorou desde janeiro de 2025, quando teve início o segundo mandato de Trump. Enquanto o índice do Conference Board sinalizou melhora em outubro, o levantamento da Universidade de Michigan registrou uma das menores leituras da série histórica.
O mercado de trabalho segue como argumento em favor da confiança macroeconômica. Solicitações semanais de seguro-desemprego estão próximas do patamar mais baixo em 57 anos, e a taxa de desemprego, em 4,2% em setembro, não ultrapassa 4,5% há cinco anos consecutivos. Essa percepção é captada pelo próprio Conference Board, que mede a diferença entre quem vê abundância de vagas e quem enxerga escassez; o indicador subiu no mês passado.
A valorização das ações também reforça a renda das famílias de alta renda, sustentando o consumo — motor tradicional do crescimento nos EUA. Ainda assim, resultados corporativos recentes de gigantes como Amazon e Intel levantaram dúvidas sobre a duração do boom de investimentos em IA, provocando forte correção no Nasdaq Composite.
“As pesquisas com consumidores podem parecer um pouco pessimistas, mas o comportamento do consumidor está bastante sólido”, disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent, em entrevista à CNBC na semana passada.
Economistas alertam que rachaduras podem surgir. A guerra de oito meses envolvendo EUA, Israel e Irã elevou o preço global dos combustíveis, pressionando cadeias produtivas e contribuindo para a aceleração dos preços. Formuladores de política monetária do Federal Reserve apontam ainda a demanda por inteligência artificial como novo foco de pressões inflacionárias, enquanto o ritmo de crescimento dos salários perde fôlego.
Desde janeiro de 2025, tanto o índice de preços ao consumidor quanto a remuneração média por hora avançaram cerca de 5,5%, segundo o Departamento de Estatísticas do Trabalho. Na prática, o poder de compra do trabalhador permanece estagnado em relação ao início do segundo mandato de Trump. Esse panorama alimenta o ceticismo detectado nas pesquisas e coloca a economia no coração do voto que será depositado amanhã, 3 de novembro.
Com números robustos de emprego, ganhos expressivos no mercado acionário e um crescimento que supera 3%, o governo sustenta que a economia segue ‘‘bastante sólida’’. Ao mesmo tempo, a inflação, ainda longe da meta de 2% do banco central, segue minando a confiança popular. Entre as urnas e a planilha de gastos domésticos, o humor dos eleitores deve ser testado, definindo o rumo político do país nos próximos dois anos.
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