Embaixador cubano no Brasil afirma que a ilha vive crescente tensão desde a volta de Donald Trump à Casa Branca e classifica como 'real' a possibilidade de ataque dos EUA. Havana mantém planos de defesa e mobiliza o povo.
Cuba considera “real” a possibilidade de uma ação militar dos Estados Unidos contra a ilha, segundo avaliação feita pelo embaixador cubano no Brasil, Victor Manuel Cairo Palomo. Em entrevista concedida recentemente, o diplomata descreveu um cenário de tensão crescente desde a volta de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, e disse que Havana mantém planos de defesa para enfrentar qualquer ofensiva externa.
“O povo cubano se prepara hoje para uma invasão real dos EUA. O governo e o povo cubanos não podem ignorar as pretensões dos EUA de uma invasão a Cuba. Isso é real”, afirmou.
O representante destacou que, além da mobilização interna, Havana tem apelado à comunidade internacional e à imprensa para que não normalizem uma agressão armada. Ele sustenta que a maioria da população apoia a defesa da soberania e que a ilha possui tradição histórica de resistência.
As declarações ocorrem num contexto de sanções sucessivas impostas por Washington. Desde 2025, a Casa Branca intensificou restrições econômicas, incluindo bloqueio energético que deixou o país caribenho três meses sem receber petróleo. O turismo, principal fonte de renda cubana, sofre com redução drástica de voos, saída de redes hoteleiras estrangeiras e retirada de operadoras de cartão de crédito.
A retórica de Trump também contribui para o clima de instabilidade. Em março de 2026, o presidente declarou que teria a “honra de tomar Cuba” e, em outubro, afirmou que cuidaria da questão cubana após o conflito com o Irã. Apesar disso, Trump chegou a sugerir a possibilidade de um acordo, dizendo não acreditar na necessidade de tropas terrestres.
Em janeiro deste ano, a Casa Branca classificou Cuba como “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos EUA, acusando o governo de Miguel Díaz-Canel de abrigar adversários estratégicos. Na mesma linha, o secretário de Estado Marco Rubio tem defendido medidas para forçar uma mudança de regime em Havana.
“Faremos o possível para tomar medidas que iniciem esse processo de mudança [em Cuba]. E será um processo que não será fácil”, disse Rubio em setembro.
Palomo rebateu as acusações, chamando-as de “ridículas” e alegando que um país pequeno, submetido a bloqueio econômico por seis décadas, não possui capacidade para ameaçar a principal potência militar do planeta.
“Cuba não é uma ameaça para os EUA. Um país bloqueado, pequeno e economicamente asfixiado não tem como pôr em risco a primeira potência do mundo”, argumentou.
O embaixador classificou qualquer ação armada contra a ilha como genocídio, citando o desequilíbrio de forças entre uma potência nuclear e um território de 90 milhas de extensão. Ele ainda advertiu que um conflito em Cuba poderia desestabilizar toda a região e impactar milhões de cubano-americanos radicados nos EUA.
Paralelamente, o Departamento de Estado anunciou novas sanções a empresas envolvidas com tecnologias sensíveis ligadas a Havana, e a Justiça norte-americana expediu mandado de prisão contra o ex-presidente Raúl Castro. Para Palomo, tais medidas compõem uma ofensiva mais ampla para forçar a queda do Partido Comunista, que governa o país desde 1959.
Apesar do cerco, o diplomata afirma que os cubanos pretendem resolver seus próprios desafios sem intervenção externa.
“Nós cubanos temos problemas, mas temos o direito de resolvê-los por vontade própria. Não por uma agressão militar. Esse não é o caminho”, concluiu.
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