O foco nas taxas de ocupação de leitos em hospitais nunca estiveram tão em alta como nos tempos atuais. O aumento da demanda de internamento provocada pela pandemia do novo coronavírus (covid-19) trouxe à tona casos de pessoas que precisam aguardar horas e até dias por uma vaga em uma enfermaria ou em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) nos hospitais de Sergipe.
Para entender o motivo de situações como essas que acontecem apesar do aumento da oferta de leitos, que segundo o governador de Sergipe, Belivaldo Chagas (PSD), devem chegar a 233 somente na rede pública, o AjuNews conversou com o diretor de Vigilância em Saúde da SES, Marco Aurélio Góis.
Segundo o diretor, é importante entender que o internamento em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) passam pelo processo de Regulação, ferramenta que organiza a oferta de leitos à população. “Todos os leitos do SUS são regulados. Essa regulação é feita a partir do quadro de saúde do paciente que tem por objetivo localizar um leito que atenda as necessidades dele”.
Com a pandemia, leitos específicos para tratamento de pessoas com covid-19 precisaram ser distinguidos dos demais. “Isso cria uma barreira, mas que é necessária”, disse Marco Aurélio. A medida é necessária para que não haja a contaminação de pacientes que estão internados por outros motivos. Por isso, só é possível a internação em leitos exclusivos de covid-19 com a confirmação do diagnóstico.
O diretor aponta que a partir da entrada do paciente em alguma das portas de urgência do estado – que compreendem os hospitais regionais, maternidades, as Unidades de Pronto Atendimento (Upa) Fernando Franco, na Zona Sul de Aracaju, e Nestor Piva, na região Norte da capital, e no Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), Zona Oeste-, o médico realiza a avaliação do estado de saúde e, a partir disso, faz a solicitação do leito à Central de Regulação.
O pedido é avaliado com base em uma série de critérios e é nesse momento que a demora na liberação do leitos pode acontecer, seja pela falta de um perfil adequado para atender as especificidades do paciente ou pela burocracia do procedimento. “Após a avaliação, o médico preenche o pedido com todos os motivos. Às vezes faltam informações ou detalhes. Tudo isso pode acarretar no atraso da liberação. Quando o erro é administrativo deve-se correr atrás para que isso seja corrigido”, explica Marco Aurélio.
Um exemplo dessa situação ocorreu no dia 25 de maio, quando um idoso, 91 anos, e sua filha, 66 anos, esperaram mais de 6 horas em ambulâncias do Sistema de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) porque as Unidades de Pronto Atendimento (Upas) da rede pública de Aracaju se negaram a receber os pacientes. Os dois precisaram ser encaminhados para a cidade de Estância, Sul do estado, e morreram, cinco dias depois da internação. Ambos foram diagnosticados com covid-19.
O caso gerou críticas à gestão do prefeito Edvaldo Nogueira (PDT) no enfrentamento da pandemia. Parlamentares do Cidadania ingressaram com representação no Ministério Público Federal (MPF) contra a prefeitura de Aracaju e o governo de Sergipe para que os fatos fossem apurados. “Claramente existe um problema no fluxo de regulação estabelecido, com um gargalo na porta de entrada nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), especificamente, no município de Aracaju”, diz trecho da nota enviada à reportagem.
Para Marco Aurélio, o procedimento de Regulação deve ser visto como um todo. “É claro que a regulação acaba sendo demonizada, mas é necessário a existência dessa ferramenta que vai identificar a demanda do serviço de saúde, a necessidade do paciente e a unidade hospitalar que está disponível para recebê-lo”, finaliza
Quase quatro meses após o início da pandemia e mesmo com os dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES), divulgados diariamente, apontando que não há uma superlotação, como o que ocorre em unidades hospitalares privadas do estado, além do aumento da oferta de leitos de UTI ou de retaguarda, a expectativa era de que o fluxo de internações fosse mais dinâmico e que ocorrências como as citadas não fossem tão rotineiras.
Buscando justificativas para a situação, o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Trabalho (MPF) e o Ministério Público do Estado de Sergipe (MP-SE) instauraram, na última sexta-feira (3), um procedimento para apurar denúncias de pacientes com covid-19 terem que aguardar dias para serem transferidos para UTI, mesmo com leitos disponíveis.
De acordo com o boletim da SES divulgo neste domingo (12), atualmente, na rede pública Sergipe possui 196 leitos de UTI adulto, 7 leitos UTI neonatal/pediátrico e 369 leitos de enfermaria. A taxa de ocupação de leitos de UTI na rede pública destinados para pacientes com covid-19 é de 77% (UTI adulto), 42,9% (UIT neonatal/pediátrico) e 67,2% (enfermaria). Em Sergipe, 37.631 pessoas já testaram positivo para a covid-19 e 984 morreram.
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