O ano de 2020 tem sido marcado por várias tragédias, principalmente, com casos de violência contra pessoas negras vítimas do racismo estrutural que ainda perdura no Brasil. João Pedro Mattos, Guilherme Silva Guedes, Matheus Fernandes e Claudia Silva Ferrares são alguns dos tantos outros negros que foram violentados ou assassinados no país.
No Brasil, os casos de homicídio de pessoas negras aumentaram 11,5% entre 2008 e 2018, de acordo com o Atlas da Violência 2020, divulgado nesta semana. Segundo a análise, Sergipe apresentou a quarta maior taxa de pessoas negras violentadas no país. No período avaliado, o número saltou de 404 para 1.079 mortes, com uma taxa de 167,1% a mais. Entre as mulheres, 85% eram negras.
Em entrevista ao AjuNews, o professor e especialista em Gestão de Projetos de Desenvolvimento de Comunidades Afro-descedentes da América Latina, Robson Anselmo, avaliou que os dados demonstrados pelo estudo reforçam o racismo arraigado na sociedade.
“[Os dados] não causam indignação nas pessoas, não provocam as instituições e não chocam a sociedade. Esse comportamento que denuncia uma anestesia coletiva se fundamenta no racismo que é a coluna dorsal das relações, do ordenamento legal e das práticas institucionais, individuais e coletivas”, afirmou.
O especialista explica também que no país, o racismo e patriarcado são “faces de uma mesma moeda”. “A mulher negra é duplamente vitimizada, violentada numa lógica perversa de desumanizá-la a qualquer custo. Assim, todos os indicadores sociais apontam o grau de depreciação da condição social da mulher negra, de forma que ela sempre é colocada no final da fila de acesso às políticas públicas e de seu reconhecimento como destinatária de direitos”.
Também em conversa com a reportagem, um dos integrantes do Movimento Unegro Sergipe, Bruno Santana, disse que o índice reflete a intensificação do genocídio negro no Estado. Ele ressaltou que a expansão do tráfico de drogas, principalmente, no interior do Estado “fortalece o genocídio em Sergipe”.
Bruno ainda recorda o caso do designer de interiores Clautênis José dos Santos, mortos com diversos tiros disparados por policiais, na Barra dos Coqueiros, em fevereiro deste ano. Para ele, é preciso reformar a política de segurança pública do país.
“Existe orientação punitivista. É a política do ‘atirar primeiro, perguntar depois’. A prevenção da criminalidade é que precisa basear esse sistema”, pontuou.
Ao site, a universitária e integrante do Coletivo de Estudantes Negras e Negros Beatriz Nascimento (CNBN), Rafaelle Silva, também avaliou que a morte de negros no estado sergipano é um reflexo do racismo no país.
“Sergipe é um estado composto majoritariamente por negros, se a gente for avaliar esses dados, alguns são de confronto com a polícia ou assassinatos que refletem a guerra às drogas que acontecem majoritariamente nas periferias do Estado”, apontou.
Sobre o número de mulheres mortas no estado, Rafaelle entende que é preciso que haja políticas públicas exclusivas para a população negra feminina, segundo ela, bastante desassistida nos dias atuais.
“O projeto feminista contra a violência doméstica não chega nas mulheres negras, é preciso se pensar então uma política voltada ao racismo, mas também à violência doméstica sofrida por mulheres negras”, afirmou.
Sob supervisão de Peu Moraes
Leia mais
Sergipe tem a quarta maior taxa de assassinatos de pessoas negras no Brasil
Uma mulher foi assassinada a cada duas horas no Brasil em 2018, aponta Atlas da Violência
Sergipe tem sexta menor taxa de assassinatos de mulheres no país; mais de 80% eram negras
Siga o AjuNews e entre no nosso grupo de notícias de Aracaju.









