Capas na Europa e Ásia repercutiram a virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro e apontaram obstáculos políticos e econômicos para o novo mandato. O Le Monde chamou a vitória de improvável diante das pesquisas.
A surpreendente reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada nas urnas no domingo, 25 de outubro, circulou com força nas capas e páginas digitais de jornais da Europa e da Ásia. Os veículos estrangeiros repercutiram tanto a virada numérica contra o senador Flávio Bolsonaro – primeiro colocado no primeiro turno – quanto os obstáculos políticos e econômicos que aguardam o presidente no Palácio do Planalto.
O francês Le Monde classificou a vitória como um acontecimento improvável diante das sondagens que, até a véspera do segundo turno, apontavam o contrário. O jornal descreveu a mobilização popular, nas ruas e nas redes, como fator decisivo para a mudança de rota na disputa.
“Nada menos que um milagre, considerando o quanto as pesquisas apontavam o contrário.”
Em complemento, o periódico francês sublinhou que parte dos eleitores teria comparecido às urnas para impedir o retorno da direita ao Planalto, após quatro anos de governo Bolsonaro.
Do outro lado do Canal da Mancha, o britânico The Guardian leu o resultado como revés direto à Casa Branca e a Donald Trump, apontado pelo jornal como aliado internacional relevante do clã Bolsonaro.
“O presidente dos EUA esperava que Bolsonaro se tornasse o mais recente de uma série de líderes pró-Trump a assumir o poder na América Latina.”
A rede pública BBC enfatizou que, superada a comemoração, Lula terá de dialogar com um Congresso majoritariamente conservador e um eleitorado igualmente dividido.
“Apesar de os apoiadores de Lula estarem eufóricos, os resultados mostram que o país permanece profundamente dividido.”
Para a emissora britânica, a reeleição do petista contrasta com o avanço de governos alinhados à direita no continente. Entre as 20 nações latino-americanas, somente seis – entre elas México e Cuba – mantêm administrações de esquerda.
A agência Reuters avaliou que a gestão fiscal será um dos grandes testes do quarto mandato. Segundo análise assinada por Brendan O’Boyle, a promessa de garantir aumento real do salário mínimo conflita com pressões pela contenção da dívida pública.
“As promessas de Lula entram em conflito com a crescente pressão para manter a dívida sob controle.”
A Reuters também alertou para a resistência do Legislativo a futuras indicações a órgãos reguladores, ao Banco Central e ao Supremo Tribunal Federal.
“O Congresso provavelmente bloqueará ou desacelerará as nomeações de Lula para cargos-chave.”
No Japão, o Japan Times considerou o resultado “chocante” e descreveu o líder brasileiro como “ícone da classe trabalhadora”. Na ótica do jornal, a virada eleitoral reforça o peso dos movimentos sindicais e de base na política brasileira.
Reações de governos estrangeiros também chegaram em ritmo acelerado. Em comunicado divulgado nesta segunda-feira, o Ministério das Relações Exteriores da China declarou disposição para “avançar na construção de uma comunidade de futuro compartilhado” com o Brasil. O presidente russo Vladimir Putin enviou mensagem ao “prezado amigo” Lula, saudando as “qualidades de liderança” reconhecidas nas urnas. Já Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, celebrou a vitória afirmando que “a democracia e o multilateralismo venceram no Brasil”.
Os números que sustentam o feito histórico ajudam a medir o tamanho da reviravolta. No primeiro turno, Lula aparecia com 45,16% dos votos, contra 47,03% de Flávio Bolsonaro. Nunca, na história da eleição presidencial brasileira, um candidato havia revertido desvantagem parecida no segundo turno. Agora, com o quarto mandato assegurado, Lula entra na lista enxuta de líderes mundiais que governaram o país por mais de oito anos, ombreando nomes como Getúlio Vargas.
Depois da festa, o cronômetro político já corre. De um lado, cobranças por responsabilidade fiscal; do outro, expectativas sobre políticas sociais e ambientais, temas em que o próprio Lula prometeu priorizar o diálogo internacional. Analistas, jornais e governos concordam em um ponto: o novo mandato se inicia sob intensa observação global e com um Congresso nacional cuja correlação de forças exigirá negociações constantes.
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