O prêmio Nobel de Economia de 2010, Christopher Pissarides, afirmou nesta quinta-feira (17/07) que o medo de uma onda de demissões em massa provocada pela Inteligência Artificial (IA) não encontra respaldo nos indicadores macroeconômicos. O economista participa da 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET), que ocorre no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, e segue até sábado (18).
“Há alguns poucos exemplos de aumento de desemprego que ganham toda a publicidade, especialmente nas empresas de tecnologia, que envolvem realmente milhares de trabalhadores. Mas se você olhar para o quadro geral da macroeconomia, essas coisas são muito, muito pequenas”, argumenta Pissarides.
Para o especialista na dinâmica do mercado de trabalho, a IA tem funcionado predominantemente como um instrumento de apoio ao trabalhador, e não como substituto. Ele aponta, por exemplo, que setores tradicionais, como a construção civil, registram elevação na demanda por mão de obra. Paralelamente, surge uma variedade de vagas em ramos como segurança, manutenção de equipamentos, robótica e análise de dados, impulsionados justamente pelo avanço tecnológico.
“Em áreas tradicionais do mercado de trabalho, como a construção civil, há um aumento na demanda. Há também novos empregos surgindo para aumentar a segurança, manutenção, robótica, equipamentos, segurança, análise de dados de programas, e assim por diante”, acrescenta o Nobel.
Uma pesquisa conduzida pelo economista mediu a chance de um profissional precisar ser treinado novamente após permanecer oito anos na mesma função. O estudo conclui que quem atua diretamente com tecnologia enfrenta maior urgência de reciclagem. Já ocupações ligadas ao cuidado humano e à educação – como enfermagem e magistério – praticamente não exigem mudanças bruscas de habilidade no mesmo período.
Apesar do otimismo quanto ao volume de vagas, Pissarides ressalta que a distribuição desses benefícios ainda gera preocupações. Cerca de 60% dos investimentos globais em IA concentram-se em grandes centros, como o eixo Londres-Oxford-Cambridge. A concentração, segundo ele, aprofunda disparidades regionais.
Nos segmentos considerados menos suscetíveis à automação, como hotelaria e enfermagem, o desafio central é salarial. Como não há salto expressivo de produtividade alavancado por algoritmos, esses profissionais tendem a ver remunerações estagnadas sem políticas públicas específicas.
“O maior desafio com esses setores é como garantir que eles sejam bem pagos, dado que eles não conseguem mostrar ganho de produtividade. Portanto, eles têm que depender de dinheiro do governo. E se o governo não tiver dinheiro, eles não serão pagos, o que é a coisa mais triste”, adverte Pissarides.
Para mitigar riscos, o economista defende reforma educacional que substitua a especialização precoce por uma formação que estimule a capacidade de “aprender a aprender”, combinando ciências exatas, ciências sociais e humanidades.
A conferência recebe outros expoentes da teoria econômica. James Heckman, Nobel de 2000, e Lars Peter Hansen, laureado em 2013, estão entre os palestrantes confirmados. Também figuram na programação José Scheinkman, Michael Woodford, Andreu Mas-Colell, Timothy J. Kehoe, Felix Kübler, Piotr Dworczak e M. Ali Khan.
Esta edição presta homenagem aos 80 anos do economista brasileiro Aloisio Araújo, pesquisador emérito do IMPA e professor da Fundação Getulio Vargas.
“Eu fico muito feliz de chegar aos 80 anos ao lado de amigos, estudantes e ex-estudantes. O formato presencial do evento permite que pesquisadores se encontrem em diferentes momentos e compartilhem ideias”, celebra Araújo.
As atividades da SAET 2026 prosseguirão até sábado (18), com apresentações de artigos inéditos, discussões sobre precificação de ativos, economia da informação e macrotendências. A expectativa dos organizadores é consolidar o Brasil na fronteira da pesquisa econômica contemporânea.
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