Após vitória democrata nas midterms, lideranças conservadoras na Europa adotam tom cauteloso em relação a Trump. Em França, Jordan Bardella citou impactos econômicos negativos de decisões militares dos EUA.
Após a vitória democrata nas eleições norte-americanas de meio de mandato, diversos líderes da direita europeia passaram a adotar tom mais cauteloso em relação ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Embora até pouco tempo mantivessem perfis nas redes sociais repletos de fotografias em Washington e declarações de apoio ao slogan “America First”, muitos agora tratam a associação com o republicano como possível prejuízo eleitoral.
Na França, o presidente interino do Reunião Nacional, Jordan Bardella, destacou que as recentes decisões militares dos EUA trouxeram impactos econômicos negativos para todo o planeta.
“A intervenção norte-americana em relação ao Irã acarreta consequências muito graves”, afirmou Bardella, sem citar Trump nominalmente.
Pesquisas locais apontam o partido como favorito para formar o próximo governo francês, cenário que reforça a necessidade de ampliar a base de apoio além do eleitorado mais alinhado ao trumpismo.
A mesma preocupação surgiu na Alemanha. Alice Weidel, copresidente da Alternativa para a Alemanha (AfD), disse que a quebra de promessas sobre política externa pesou nas urnas:
“Trump havia prometido a seus eleitores que não seguiria uma política externa intervencionista. A promessa quebrada agora voltou para assombrar os republicanos.”
Na Itália, o vice-premiê Matteo Salvini, da Liga, atribuiu o resultado americano à combinação de conflitos internacionais com o aumento do custo de vida.
“A esperança é que essa votação possa representar uma aceleração rumo ao fim dos conflitos e um retorno à paz”, declarou.
Também italiano, o ex-general Roberto Vannacci, líder do recém-criado Futuro Nacional, avaliou que o presidente não entregou o que havia prometido em 2024.
“Trump não correspondeu às expectativas, foi incapaz de pôr fim à guerra entre a Rússia e a Ucrânia e iniciou uma guerra contra o Irã”, disse ele à agência ANSA.
Para o analista Mujtaba Rahman, diretor-gerente da consultoria Eurasia Group, o distanciamento tem motivação prática.
“Sua crescente impopularidade, especialmente em relação ao custo de vida, corre o risco de transformar o que antes era um trunfo político em risco eleitoral”, avaliou.
Rahman ponderou que um afastamento excessivo pode levar o entorno de Trump a retirar apoio informal a esses partidos europeus.
Nem todos na direita continental enxergaram a noite eleitoral como desastre. Na Romênia, Dan Dungaciu, vice-presidente da Aliança para a Unificação dos Romenos, minimizou a leitura de “fim político”.
“Donald Trump não se torna automaticamente um presidente sem poder. Em vez disso, ele passa de uma presidência apoiada por maiorias republicanas para uma em que o Executivo e o Congresso se controlarão mutuamente de forma muito mais intensa”, declarou.
O espanhol Santiago Abascal, do Vox, foi sucinto ao afastar-se do debate norte-americano.
“Não me importo muito com o que acontece em outros lugares”, disse, lembrando que está “na Espanha e não em Michigan”.
Rupert Lowe, do Restore Britain, classificou a ofensiva contra o Irã como “erro catastrófico” e questionou seus resultados práticos. Já o britânico Nigel Farage, do Reform UK, reconheceu “derrota completa e total” do Partido Republicano, apontando guerra e preço de combustíveis como fatores decisivos.
“Foi uma derrota esmagadora, em grande parte, creio eu, por causa da guerra, da guerra prolongada no Irã e do custo do combustível”, afirmou Farage na GB News.
A avaliação corrente nos bastidores é que laços antes celebrados podem tornar-se ônus, sobretudo para partidos que pretendem avançar além do eleitorado mais ideologizado. Até que ponto o reposicionamento será capaz de preservar pontes com a Casa Branca sem espantar eleitores insatisfeitos é uma resposta que começará a aparecer nas próximas urnas europeias.
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