Turismo


Dia do ciclista: Uso de bicicleta como solução para desafogar transporte coletivo de Aracaju esbarra em falta de políticas de incentivo


Publicado 19 de agosto de 2021 às 09:05     Por Dhenef Andrade e Peu Moraes     Foto Dhenef Andrade / Ajunews

A crise no transporte coletivo da Grande Aracaju, escancarada ao longo de mais de um ano de pandemia do novo coronavírus (covid-19), colocou em pauta a necessidade de se investir em alternativas para a locomoção da parcela dos aracajuanos que se vê refém de um serviço que há tempos vem sendo negligenciado.

A capital sergipana era referência quando o assunto era investimentos na estrutura para atender a quem utilizava a bicicleta como opção de mobilidade, já que a cidade “cicloamiga” é de pequeno porte e possui grandes eixos viários que interligam as quatro regiões. Em 2011, Aracaju possuía a maior rede cicloviária do Brasil, proporcionalmente. Esse posto, no entanto, foi se distanciando ao longo do tempo.

De acordo com um ranking elaborado a partir de dados das prefeituras, em 2016, a capital sergipana tem cerca de 70 km distribuídos entre ciclovias e ciclofaixas e ocupava a terceira posição, em extensão de malha, no Nordeste, atrás apenas de Fortaleza, com 198 km, e Salvador, que possui 85.9 km. No contexto nacional, entre todas as capitais, Aracaju ocupava a 12ª colocação.

Incentivado em outras partes do mundo, principalmente durante a crise sanitária, no Brasil o incentivo a demais modais ainda segue em ritmo lento. Com vias dominadas por veículos, em pouco tempo Aracaju foi adquirindo problemas na boa fluidez do trânsito. Dado o cenário, e tendo no retrovisor um passado não tão distante de incentivo e suporte ao ciclista, porque não promover estratégias que conscientizem a população sobre outras possibilidades de deslocamento?

Para quem já a usa como meio de deslocamento também enfrenta dificuldades. Uma grande parcela desse público se concentra na região Norte da cidade, onde a qualidade das ciclovias costuma ser inferior em comparação com a região Sul. Nas áreas marginalizadas, os ciclistas são obrigados a desviar entre os carros, enquanto a prefeitura investe em trajetos para lazer. Um dos representantes da ONG Ciclo Urbano, o Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal de Sergipe e especialista em Engenharia de Tráfego Waldson Costa, aponta que o problema é que “o poder público demonstra falta de conhecimento sobre a real necessidade do indivíduo que usa a bicicleta como meio de transporte”.

“Atualmente as ciclovias apresentam fragilidades na sua infraestrutura e nas condições de sinalização específica para o ciclista. É importante salientar que as condições de cobertura vegetal de todas as ciclovias precisam ser aperfeiçoadas por que o conforto térmico é um fator importante para o uso da bicicleta como meio de transporte”, aponta Waldson. Vale lembrar que correm por fora daqueles que pedalam porque querem, despontam aqueles que viram no transporte um meio de ganhar dinheiro. Foi assim que o boom de entregadores por aplicativo, em especial a partir de 2019, e principalmente nos últimos dois anos devido à pandemia, foi um dos responsáveis por provocar um aumento no uso de bicicletas em todo o país.

O especialista entende que o grande número de usuários desse transporte é favorável do ponto de vista ambiental, mas que o suporte da cidade ao trabalho do entregador é insuficiente. “As bicicletas possuem uma importância muito grande para uma nova realidade de micrologística nas cidades, infelizmente a infraestrutura não acompanhou a demanda e o resultado é a construção de desigualdades e riscos para esses cidadãos que realizam esse serviço com o uso da bicicleta”.

Embora a gestão atual tenha revitalizado trechos importantes de ciclovias, como a da avenida Augusto Franco e a da antiga Heráclito Rolemberg, hoje avenida José Carlos Silva, problemas de conexão entre trechos que expõe o cuidado no planejamento são comuns. Uma das várias reclamações de ciclistas é que falta espaço na ciclovia da antiga Rio de Janeiro que sequer tem um acabamento para protegê-los de possíveis quedas do lado em que está localizada a linha férrea. Além disso, o trecho não contempla condições para o tráfego de pedestres que muitas vezes disputam o lugar com os ciclistas.

Procurada, a SMTT afirma que desde o início da gestão, a Prefeitura de Aracaju tem executado obras de pavimentação e infraestrutura que incluem a construção de ciclovias e ciclofaixas. “A exemplo da avenida Santa Gleyde, do Canal Beira Mar, que ganhou 1,5km de ciclovia, e de ruas e avenidas do bairro Santa Maria. Além disso, o novo eixo viário que está sendo construído no bairro 17 de Março, que terá mais 1,2km de ciclovia”, disse a pasta por meio de sua assessoria.

Ainda de acordo com a superintendência, há planejamento para executar obras para ampliação de corredores de mobilidade e de interligação das ciclovias existentes. Sem dar detalhes de prazos, o órgão diz que “entende a importância do incentivo a outros modais como alternativa ao transporte público, por isso, tem feito a manutenção preventiva e corretiva nas principais ciclovias da cidade, como a da Tancredo Neves e Beira Mar, e realizado campanhas educativas para incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte”.

Para Waldson, no entanto, ainda falta muito para a cidade ter a condições ideais para o modal. “Falta planejamento da gestão pública no melhor ordenamento, planejamento e monitoramento das ações voltadas para esse setor, falta estratégias de políticas públicas setoriais com a participação dos usuários para a elaboração de políticas públicas voltadas para o uso da bicicleta como modo de transporte, falta investimentos em estrutura acessível em todas as regiões da cidade e educação no trânsito específica para os condutores de bicicleta.”

As potencialidades de incentivar o uso da bicicleta extrapolam o setor da mobilidade urbana e chegam ao cicloturismo. A ideia da construção de uma ciclovia que liga Salvador à Aracaju encheu os olhos de muita gente. O projeto da ciclovia interestadual partiu do deputado federal baiano Arthur Maia (DEM), e conta com o apoio dos deputados federais de Sergipe Fábio Mitidieri (PSD), Fábio Henrique (PDT) e Gustinho Ribeiro (Solidariedade), Laércio Oliveira (PP) e Fábio Reis (MDB).

Lançada oficialmente pela Companhia do Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), em Brasília, em maio deste ano, a maior ciclovia do Nordeste teria 320 km de extensão e ligaria o Farol da Barra, orla de Salvador, à Praia dos Artistas, em Aracaju.



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