O Brasil intensifica negociações para transformar o Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão, em ponto estratégico para lançamentos comerciais e militares. Estão em andamento cerca de 20 tratativas entre o governo federal e companhias de vários continentes, que pretendem “alugar” a infraestrutura maranhense a partir deste ano.
A mais adiantada é a sul-coreana Innospace, autorizada pela Agência Espacial Brasileira (AEB) em 22 de junho a colocar em órbita um pequeno satélite. A operação, prevista para ocorrer ainda em 2026, servirá como vitrine tecnológica para novos clientes e pode inaugurar uma cadência regular de decolagens a partir do território nacional.
Criada em 2024, a Empresa de Projetos Aeroespaciais (Alada) atua como interface entre potenciais usuários e o setor público. Seu diretor de projetos e negócios, Paulo Ricardo da Silva Mendes, afirma que a busca por parcerias inclui players da América, Europa, Ásia e Oceania.
“Estamos interagindo com empresas interessadas em lançar seus veículos no Brasil. Algumas negociações já estão em fase avançada”
O faturamento oriundo dos contratos será reinvestido na própria base, que hoje comporta foguetes de pequeno e médio portes, capazes de transportar de 20 a 50 toneladas para a órbita terrestre. A configuração é semelhante à dos populares Falcon 9, da SpaceX, avaliados por especialistas como o padrão do mercado comercial.
Estudo da consultoria Global Market Statistics indica que o setor espacial movimentou US$ 220 bilhões em 2025 e deve alcançar US$ 315 bilhões até 2034. A oferta global de centros de lançamento, porém, não acompanha esse ritmo. Por isso, Alcântara, situada a apenas 2°30’ ao sul da Linha do Equador, surge como alternativa competitiva: sua posição geográfica reduz em até 30% o consumo de combustível na decolagem.
O diretor do centro, coronel Adalberto de Rezende Rocha Júnior, projeta que a base poderá absorver 90% dos lançamentos anunciados para a próxima década.
“Alcântara está se transformando para atender à demanda e ser um agente global”
Outra vantagem é o tráfego aéreo limitado na região e a ausência de grandes centros urbanos, fatores que simplificam procedimentos de segurança. A concorrente mais próxima, Kourou, na Guiana Francesa, já trabalha no limite de sua capacidade.
Para garantir proteção tecnológica, Brasil e Estados Unidos firmaram acordo de salvaguardas em 2019. O documento, assinado ainda no governo Bolsonaro, permite o uso de componentes norte-americanos — presentes em 80% dos foguetes — sem risco de transferência indevida de conhecimento.
O coordenador de Licenciamento da AEB, Danilo Sakay, prevê ritmo inicial de um lançamento por mês.
“Já será um bom começo, com possibilidade de expansão conforme a chegada de novos operadores”
A Innospace, que prepara sua segunda tentativa, fez o voo inaugural em dezembro de 2025; naquela ocasião, o veículo explodiu 33 segundos após a decolagem por falha de projeto. “É como um avião: se decolou e caiu, não é culpa da pista”, comenta Mendes.
Fundado em 1983, o Centro Espacial de Alcântara acumulou insucessos ao longo das décadas, incluindo a tragédia de 2003, quando 21 profissionais morreram na explosão de um VLS.
“Perdemos nossos heróis e ficamos estagnados, mas agora retomamos o caminho”, relembra um dos gestores.
Com a chegada de novos investimentos, o país aposta em virar essa página e conquistar presença relevante no mercado espacial global.
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