Relatório do BC mostra 20,3 milhões de brasileiros em risco financeiro, alta de 75% em cinco anos. Famílias com até dois salários mínimos têm 42% da renda comprometida, diz o estudo.
O Banco Central divulgou, nesta terça-feira (27/10), o Relatório de Estabilidade Financeira referente ao primeiro semestre de 2026 e apontou um avanço expressivo do endividamento de risco no país. De acordo com o documento, 20,3 milhões de brasileiros encontram-se nessa condição, o que representa crescimento de 75% em cinco anos e corresponde a 17% de todos os devedores do Sistema Financeiro Nacional.
Os dados acendem o sinal de alerta para o comprometimento de renda das famílias, especialmente entre os que recebem até dois salários mínimos. Nesse grupo, 42% do rendimento mensal já está comprometido com dívidas, sendo 15% apenas com cartão de crédito. Entre quem ganha mais de dez salários mínimos, o comprometimento total chega a 18,6%.
Principais números
- 20,3 milhões: brasileiros em situação de endividamento de risco
- 75%: crescimento entre junho de 2021 e junho de 2026
- 17%: participação dos devedores de risco no sistema financeiro
- 42%: comprometimento da renda entre quem ganha até dois salários mínimos
- 15%: fatia da renda dessa faixa destinada ao cartão de crédito
- 18,6%: comprometimento da renda entre quem recebe mais de dez salários mínimos
Diante do cenário, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, confirmou que novas iniciativas estão em preparação para conter ofertas consideradas agressivas de crédito, com foco especial em usuários do rotativo do cartão e em consumidores que apresentam atrasos prolongados nas parcelas.
“Pretendemos adicionar medidas ainda este ano”, afirmou Galípolo, ao destacar a preocupação com quem já lida com juros elevados.
Ele também chamou atenção para o crescimento de modalidades sem garantia — cartão de crédito, cheque especial e empréstimo pessoal não consignado — mesmo em um contexto de juros altos.
“A preocupação que existe é nessas modalidades, em que estamos assistindo crescimento de maneira pouco sensível a preço”, explicou.
Quem está em risco
- Atraso superior a 90 dias no pagamento de parcelas
- Comprometimento de mais de 50% da renda mensal com dívidas
- Uso simultâneo de cheque especial, crédito pessoal sem consignação e rotativo
- Renda restante abaixo da linha de pobreza após pagar as dívidas
Para ser classificado como endividado de risco, o consumidor precisa atender a pelo menos dois dos quatro critérios acima. O BC ressalta que a categoria não implica inadimplência automática, mas indica maior vulnerabilidade financeira.
Novas regras para empréstimos
Na última sexta-feira (23/10), o Banco Central já havia anunciado um conjunto de medidas que restringe ofertas inadequadas de crédito e amplia a transparência na contratação. As instituições financeiras terão de disponibilizar ferramentas para que o cliente bloqueie publicidade e propostas ativas. Consumidores considerados vulneráveis só poderão receber ofertas mediante autorização prévia, específica e inequívoca, limitada a alternativas que efetivamente melhorem suas condições financeiras, como renegociação ou portabilidade.
Calendário de implementação
- 31/03/2027: bloqueio de ofertas passa a valer
- Julho de 2027: painéis digitais com informações de dívidas e limites a propostas durante transações pelo Pix
Com as novas diretrizes, o Banco Central busca reduzir a contratação de crédito inadequado, estancar a escalada do superendividamento e preservar a estabilidade financeira, sem comprometer o acesso de famílias e empresas a recursos essenciais para consumo e investimento.
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