Entrevista


“Pelo fato de ser trans, não vou ficar limitada somente à população LBGTQIA+”, diz vereadora eleita Linda Brasil


Publicado 22 de novembro de 2020 às 08:00     Por Fernanda Sales     Foto Reprodução / Instagram

A ativista transfeminista e representante do movimento LGBTQIA+ em Sergipe, Linda Brasil (Psol), se tornou a primeira mulher trans a assumir uma cadeira na Câmara de Aracaju. Nessa eleição, a cabeleireira que é formada em Letras e mestranda em Educação recebeu 5.773 votos do eleitorado aracajuano. Em entrevista ao AjuNews, ela afirmou que “pelo fato de ser trans, não vou ficar limitada somente à população LBGTQIA+”, destacando que defenderá outras pautas na Câmara de Aracaju, como direitos humanos, mulheres, educação, meio ambiente, arte e cultura, além de moradia digna.

De acordo com a vereadora, seu mandato será pautado respeitando a coletividade, com a participação de todas as pessoas. Durante a entrevista, ela destacou que vai “tentar ter um diálogo” com todos os vereadores eleitos. “Penso que muitos nunca tiveram acesso à uma pessoa trans para conhecer, para poder, de uma certa forma, desconstruir os estereótipos em relação a essa população. Vou tentar ter um diálogo respeitoso com todos. Já recebi várias ligações de outros candidatos que se elegeram, que ficaram felizes e demonstraram apoio, pelo fato deu ter sido a bem mais votada”, disse ela.

Para Linda, torna-se a primeira ativista transfeminista eleita vereadora em Aracaju representa um grande desafio. “Me comprometo em realizar ‘uma mandata’ de forma revolucionária, que não reproduza esse sistema de modelo que está aí. Então, essa candidatura representa uma nova fase na minha vida e na vida de tantas outras pessoas, não só LGBTQIA+, mas da política sergipana”, informou.

Na entrevista, Linda Brasil também cita a mudança do novo pleito da Casa Parlamentar, que na atual legislatura tem apenas a vereadora Emília Corrêa (Patriota) e, em 2021, serão quatro mulheres representando a população aracajuana. “Vamos conversar, nós quatro, para que a gente possa realmente apresentar propostas que beneficiem as mulheres, como creches em tempo integral e políticas públicas, principalmente, para combater a violência contra a mulher”.

Confira a entrevista completa:
AjuNews: Sua votação para ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Aracaju foi uma das mais expressivas, com 5.773 mil votos, trazendo um marco para a história da Casa Legislativa. Além de ter sido a candidata mais votada nessas eleições, o que este resultado representa para você, ao se tornar a primeira ativista transfeminista eleita vereadora em Aracaju?
Linda Brasil: Representa um desafio e uma responsabilidade muito grande pela confiança de tantas aracajuanas e aracajuanos que depositaram em mim essa confiança de poder desenvolver um trabalho de forma coletiva e participativa. Me comprometo em realizar “uma mandata” de forma revolucionária, que não reproduza esse sistema de modelo que está aí. Então, essa candidatura representa uma nova fase na minha vida e na vida de tantas outras pessoas, não só LGBTQIA+, mas da política sergipana. Espero que eu também possa contribuir para que a sociedade de Sergipe comece a repensar uma nova forma de fazer política. Fizemos uma campanha com muita verdade, muito amor e com muita coragem para transformar.

AjuNews: No dia 1º de janeiro, por ser a candidata mais votada, irá presidir a sessão de posse dos vereadores eleitos e conduzir a primeira sessão legislativa, bem como dá posse à nova Mesa Diretora da Casa Parlamentar. Esse será um marco na sua representatividade do movimento LGBTQIA+ em Sergipe?
Linda Brasil: Vai ser um momento muito simbólico e importante na política. Eu acho que é uma mensagem que o povo, a população de Aracaju, passa para as pessoas que querem reproduzir a mesma política, esse tipo de fazer política com várias carreatas, com carros de som, com buzinaço, que não dialoga com as pessoas. Porque nossa campanha foi feita com conversa, na periferia, com megafone em alguns locais para poder dialogar com a população. Então, não é um marco da minha representatividade, mas sim um marco da história da política de Sergipe, bem como para o movimento social que eu represento, o Movimento LGBTQIA+ e também para o Movimento Feminista, pois também sou militante feminista e defendo todas as pautas das minorias, da população negra e todas as pessoas que têm suas vidas ameaçadas por esse sistema de opressão, de exploração que está ai no poder há muitos anos.

AjuNews: Como você atuará na Câmara representando a população LBGT? Quais os principais projetos que pretende apresentar na Casa Parlamentar?
Linda Brasil: Atuarei como sempre atuei nos movimentos e nos atos de forma combativa, mas sempre respeitando a coletividade, com o viés da coletividade, com a participação de todas as pessoas. É preciso deixar claro que pelo fato de ser “trans” eu não vou ficar limitada somente à população LBGTQIA+, ela será uma das várias pautas que irei apresentar. Como a educação, que, para mim, é a base para a transformação social, também sou militante feminista e defenderei a pauta das mulheres e dos diretos humanos. Sou comprometida com as práticas políticas de Marielle Franco, que é lutar pelos direitos da população da periferia, principalmente os jovens da periferia. Então, meus principais projetos são esses, na nossa pré-campanha desenvolvemos uma plataforma através de um formulário no google forms para a população sugerir ideias e propostas para que a gente possa apresentar a partir do próximo ano. Então, essas propostas, a gente vai avaliar e vai discutir com a população quais são os projetos mais necessários para que sejam desenvolvidos.

AjuNews: Além do grupo LBGT, quais serão as suas outras bandeiras de lutas na Câmara de Aracaju?
Linda Brasil: Defenderei a pauta dos direitos humanos, das mulheres, da educação, do meio ambiente, arte e cultura, além de moradia, porque faço um trabalho junto às pessoas que não tem teto e lutam por moradia digna. Tem também a questão da segurança pública, são várias pautas. Todas aquelas pessoas que votaram em mim e aquelas que também não votaram, mas aquelas pessoas que vão apoiar nossa candidatura, que possam nos apresentar propostas e nós iremos avaliar que seja um projeto importante para a população de Aracaju.

AjuNews: Acha que sentirá dificuldades em dialogar com os vereadores eleitos nesta nova legislatura para defender a sua causa na Câmara? Qual será a sua postura como vereadora transfeminista?
Linda Brasil: A princípio, eu vou tentar ter um diálogo com todas pessoas porque eu penso que muitos nunca tiveram acesso à uma pessoa trans para conhecer, para poder, de uma certa forma, desconstruir os estereótipos em relação a essa população. Vou tentar ter um diálogo respeitoso com todos. Já recebi várias ligações de outros candidatos que se elegeram, que ficaram felizes e demonstraram apoio, pelo fato deu ter sido a bem mais votada. Então vou me esforça para que a gente possa ter um ambiente em que nossas formas de pensar, nossas ideologias, não atrapalhem os trabalhos que serão desenvolvidos na Câmara Municipal de Aracaju a partir de 2021.

AjuNews: Outras três mulheres foram eleitas na Câmara nestas eleições, a vereadora Emília Corrêa (Patriota), Sheyla Galba (Cidadania) e a professora Ângela Melo (PT). Isso mostra uma grande renovação e representatividade feminina que a Câmara terá nessa nova legislatura?
Linda Brasil: É uma mudança para esse atual pleito. Nós só temos uma, que é a Emília, e somos agora quatro. Vamos conversar, nós quatro, para que a gente possa realmente apresentar propostas que beneficiem as mulheres, como creches em tempo integral e políticas públicas, principalmente para combater a violência contra a mulher. Penso que a gente vai fazer “uma mandata”, no meu caso, eu denomino “mandata” porque esse período de trabalho na Câmara vai ser construído de uma forma de pensar e fazer com um viés das mulheres, das LGBTs. Por isso, essa pauta dos direitos das mulheres tem a ver com diretos humanos, de uma ocupação nos espaços de decisões, principalmente na política, que poderá contribuir para uma transformação efetiva da política do Brasil, especificamente de Aracaju e Sergipe, que foi construída a partir de viés patriarcado, misógino, sexista, racista, LGBTfóbico. Então, penso que nós quatro iremos contribuir para que a gente provoque transformações na política de Aracaju, consequentemente de Sergipe e, quem sabe, com esse movimento que surgiu no Brasil em que tantas outras pessoas trans e mulheres que vem do movimento e que vem com essa consciência crítica possa fazer a diferença.

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